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120 ANOS DA SOROTERAPIA ANTIVENEN0 DE VITAL BRAZIL

“Em dezembro de 1901 fiz a primeira conferência sobre o ofidismo levada a efeito na Escola de Farmácia de São Paulo, que na época funcionava no palacete Marquesa de Santos no começo da rua Brigadeiro Tobias. Essa conferência acompanhada de demonstrações experimentais, nas quais, pela primeira vez, demonstrei, em público, a eficácia do tratamento específico, teve grande assistência de médicos, professores e representantes das autoridades e de várias classes sociais, conseguindo pela repercussão obtida interessar grande número de pessoas na solução do problema. Outras conferências seguiram-se sempre acompanhadas de demonstrações praticas: extração de veneno e ação preventiva e curativa dos soros específicos. Ao lado dos meios de propaganda oral, encetei a série de publicações sobre o assunto. A primeira conferência foi editada e largamente distribuída. Artigos em que condensava os resultados de estudos sobre esse tema foram inseridos na Revista Médica de São Paulo. Assim foram se desenvolvendo no Instituto Butantan os estudos sobre as serpentes e seus venenos, assunto que se tornou nota dominante, chamando para ele a atenção dos poderes públicos, dos homens da ciência, do povo de São Paulo e dos estrangeiros. ”  Vital Brazil

SERUMTHERAPIA ANTI-OPHIDICA

Pelo DR. VITAL BRAZIL

Diretor do Instituto Serumpterápico do Estado de S. Paulo

Memoria apresentada ao 4º CONGRESSO LATINO-AMERICANO

 

CONSIDERAÇÕES GERAIS

A ideia de imunidade, ou de uma maior resistência ao envenenamento ofídico, conferida, quer por um acidente, quer por inoculações de pequenas doses de peçonha, é bastante antiga, tendo sido constatada por alguns viajantes em vários povos da América e da África. Os selvagens do Brasil, preparando os adolescentes para a luta da vida, rasgavam-lhes as carnes com dentes de animais venenosos. Os curados de culebras do México, os sertanejos do interior do Brasil que dizem ter o corpo fechado e alguns povos da África, de que fala o Coronel Serpa Pinto, exercem praticas acompanhadas de cerimonial mais ou menos complexo, que visam proteger os indivíduos contra os acidentes ofídicos. Foram talvez essas noções, em consorcio com as que já possuía a ciência a respeito de imunidade, as inspiradoras dos primeiros trabalhos experimentais, em relação á resistência que se pode conferir aos animais, injetando-lhes pequenas doses de peçonha. As pesquisas de Sewal, de Kaufmann, de Physalix et Bertrand e as de Calmette estabeleceram em bases científicas a noção de imunidade, em relação ao veneno ofídico. Mais do que isto, estes últimos pesquisadores, trabalhando em uma época (1894) em que já eram conhecidos os trabalhos de Behring e Kitasato, que firmaram as bases da soroterapia em relação à difteria e ao tétano, provaram que o soro dos animais vacinados contra a peçonha possuía também uma substancia antitóxica capaz de neutralizar os efeitos do veneno e de transmitir imunidade passiva a animais não preparados.

Calmette conseguiu hiperimunizar grandes animais para o preparo do soro antitóxico, servindo-se principalmente do veneno de cobra (Naja tripudians) e do de bungarus.

Já nos ocupávamos com o estudo do veneno das nossas cobras (1897) quando tivemos ocasião de experimentar o serum antivenimeux do Instituto de Lille em relação á peçonha de algumas espécies brasileiras, tendo verificado ser ele quase destituído de ação antitóxica para esses venenos. Por outro lado, verificámos que os animais imunizados contra o veneno de uma espécie forneciam um soro muito antitóxico em relação á peçonha que era empregada no processo de imunização, e inativo em relação ao veneno de outra espécie. Estudando a peçonha de diversas cobras, mais frequentes no sul do Brasil e principalmente as do Estado de S. Paulo, havíamos reconhecido desde logo que o veneno da Cascavel (Crotalus terrificus) se apartava, sob o ponto de vista da ação fisiológica, do de outras espécies pertencentes ao antigo gênero bothrops, entre os quais devemos citar a jararaca (Lachesis lanceolatus) e a urutú (Lachesis alternatus).

Com estes dois tipos de veneno, que denominamos crotálico e botrópico, imunizamos, desde 1901, no Instituto de Butantan animais para o fornecimento respectivamente dos soros anticrotálico e antibotrópico. O primeiro d’estes soros, muito ativo em relação ao veneno da cascavel (Crotalus terrificus), era destituído de ação em relação ao veneno botrópico e vice-versa, o soro antibotrópico antitóxico para o veneno da jararaca (Lachesis lanceolatus) ou urutu (Lachesis alternatus), era inativo em relação ao veneno de tipo crotálico.

Com estes fatos experimentais estabelecemos o princípio de estrita especificidade, entre o veneno que se emprega na imunização dos animais e o poder antitóxico do soro. Outros experimentadores, entre os quais devemos citar Mac Farland e Lamb, trabalhando sobre peçonhas de espécies de outras regiões, confirmaram, com inteira independência das nossas investigações, o mesmo princípio de especificidade.

O professor Calmette, que pode orgulhar-se de ter sido o primeiro a estabelecer um método preciso de imunização contra as peçonhas e haver demonstrado praticamente a possibilidade de preparar-se soros anti-peçonhentos, supôs a princípio que o soro obtido pela imunização de animais contra um número limitado de peçonhas, fosse bastante ativo para ser aconselhado no tratamento dos acidentes determinados por todas ou quase todas as espécies. Hoje ele é menos categórico a esse respeito, e com quanto não concorde com a lei da especificidade estrita, reconhece, entretanto, a vantagem dos Institutos regionais para o preparo de soros específicos ou polivalentes.

Calmette acredita que todas as peçonhas, qualquer que seja sua origem, encerram duas substancias principais: a neurotoxina, que exerce sua ação sobre os elementos do sistema nervoso, e a hemorragina ou diástase proteolítica, cujos efeitos são puramente locais, quando o veneno é introduzido por via subcutânea, mas que produz a coagulação do sangue, quando a injeção de veneno é feita diretamente na veia dos animais. O veneno das colubrídeas é muito rico em neurotoxina e pobre em hemorragina, enquanto que o inverso se dá com relação ao veneno das viperideas, muito rico em hemorragina e pobre em neurotoxina. Baseado nesses fatos, acredita este sábio que um soro antineurotoxico, obtido pela imunização contra o veneno de cobra, poderá mostrar-se suficientemente eficaz para combater um envenenamento determinado por uma viperidea.

Infelizmente o grande número de experiências que temos realizado para elucidar esta questão, nos levam a discordar do ilustre professor, não só com relação aos fatos em que se baseia, como com relação as conclusões.

A neurotoxina e a hemorragina são denominações puramente teóricas e não correspondem a substancias isoladas e quimicamente definidas. Indicam simplesmente sintomas que se observam no curso do envenenamento. O veneno da nossa cascavel (Crotalus terrificus) é muito neurotoxico, segundo a classificação do professor Calmette, pois tem ação local mui limitada, e mata por ação eletiva sobre o sistema nervoso. A sua neurotoxina não pode, entretanto, ser identificada á do veneno de naja, não só pelas diferenças de propriedades, como principalmente porque em doses imunizantes provoca a formação de um anticorpo diverso. O soro anticrotálico não tem efeito sobre o veneno de naja como tivemos ocasião de verificar, nem o serum antinajico (anti-venimeux de Lille) possui ação sobre o veneno crotálico.

Mesmo os venenos que determinam sintomas toxicológicos idênticos, ou muito semelhantes, e que são oriundos de espécies venenosas muito próximas, como são as lachesis da América, dão lugar, quando injetados nos animais, a formação de substancias antitóxicas estritamente especificas em relação ás peçonhas injetadas. Teremos ocasião de demonstrar bem este fato, quando estudarmos a ação dos soros preparados no Instituto de Butantan. Admitida a lei de especificidade, claro está que a seroterapia antiofídica aplicável em uma certa região depende do conhecimento das espécies venenosas que habitam a mesma região.

Neste particular, a natureza veio facilitar, até certo ponto, a solução do problema, pois a distribuição geográfica das serpentes peçonhentas obedece a uma lei metódica pela qual se verifica que as espécies, gêneros e até subfamílias são regionais. Assim é que na América, para não falarmos senão no Novo Mundo, a totalidade das cobras venenosas, com exceção única das Elaps (coraes venenosas), pertencem a subfamília Crotalinoe, divididas em quatro gêneros: Ancistrodon, Lachesis, Sistrurus e Crotalus. Destes gêneros, dois apenas se acham representados na América do Sul, enquanto que na América do Norte são encontrados os quatro. Na América do Sul são encontrados os gêneros Crotalus e Lachesis, dos quais o primeiro com uma só espécie – a Crotalus terrificus, e o segundo com 16 espécies que são:

1º. Lachesis lanceolatus – constatada em quase todos os países da América do Sul, muito abundante em todo o Brasil.

2º. Lachesis mutus – América Central e em alguns Estados do Brasil.

3º. Lachesis atrox – Equador, Peru, Guianas e Brasil.

4º. Lachesis jararacuçú – Brasil.

5º. Lachesis pulcher – Equador.

6º. Lachesis microphthalmus – Peru e Equador.

7º. Lachesis pictus – Peru.

8º. Lachesis alternatus – Sul do Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina.

9º. Lachesis neuwiedii – Brasil, Paraguai e Argentina.

10º. Lachesis ammoditoides – Patagônia e Argentina.

11º. Lachesis xanthogrammus – Equador e Columbia.

12º. Lachesis castelnaudi – Brasil, Equador e Peru.

13º. Lachesis lansbergii – Venezuela, Colômbia a Brasil.

14º. Lachesis itapetiningoe – Sul do Brasil, E. de S. Paulo.

15º. Lachesis biliniatus – Brasil, Bolívia, Peru e Equador.

16º. Lachesis Schlegelii – Colômbia e Equador.

Algumas d’essas espécies são encontradas e são as mais abundantes em quase todos os países da América do Sul. N’este número devemos citar o Crotalus terrificus e a Lachesis lanceolatus. Outras se encontram em vários países, com relativa raridade em qualquer d’eles. Outras se encontram ao Norte com certa frequência, enquanto que não são absolutamente constatadas ao Sul. Outras, ao contrário, habitam exclusivamente as regiões do Sul, sendo ali relativamente abundantes.

Dada, a estreita especificidade entre a espécie do veneno empregado e o anticorpo obtido, compreende-se facilmente que, para conseguir-se um soro de valência extensiva a todas as espécies sul-americanas, seria preciso ter a peçonha de todas essas espécies.

Para conseguir esse desiderato seria indispensável que houvesse maior facilidade nas relações entre as nações sul-americanas. Poder-se-ia, então, estabelecer a permuta entre os soros anti-peçonhentos e o veneno de espécies peculiares a certas regiões ou entre os venenos mais abundantes ao Norte pelos que são mais frequentes ao Sul.

O Instituto de Butantan, que desde 1901 prepara soro contra a peçonha das espécies brasileiras mais abundantes e que, desde aquela época, tem procurado aumentar o poder antitóxico e a valência dos soros em relação ao maior número de espécies, prepara atualmente um soro polivalente, o antiofídico, cuja eficácia tem sido comprovada para combater os envenenamentos determinados pela seguintes espécies: Crotalus terrificus, Lachesis lanceolatus, Lachesis alternatus, Lachesis atrox, Lachesis jararacuçú e Lachesis neuwiedii. Tem além d’esse, o soro anti-crotalico especialmente ativo nos acidentes causados pelo Crotalus terrificus; e o antibotrópico especialmente indicado nos casos de mordedura de Lachesis lanceolatus, Lachesis alternatus e Lachesis atrox.

Pelo exame superficial da distribuição geográfica das espécies peçonhentas da América do Sul, cujos dados indicamos precedentemente, verificamos que esses soros podem ser empregados com grande proveito não só em todo o Brazil, como em quase todos os países da América, convindo, entretanto, fazer-se uma restrição sobre a atividade d’esses produtos em relação aos acidentes determinados por espécies raras, felizmente peculiares a esta ou aquela região.

Revista Medica de S. Paulo, Jornal pratico de Medicina, Cirurgia e Hygiene, Anno XII, 15 de agosto de 1909.

Boletim para observações dos acidentes ophidicos