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110 ANOS DA DEFESA CONTRA O OFIDISMO

A DEFESA CONTRA O OFIDISMO

“Poucos anos antes da inauguração do novo edifício, em 1911, foi editado esse opúsculo em língua portuguesa, em que o autor procurou condensar todos os trabalhos sobre o assunto. Esse mesmo livro, com maior desenvolvimento, foi traduzido para o francês, em 1914.

Da edição em português segue uma notícia publicada pelo “Estado de S. Paulo”.

Estado de S. Paulo de 13 de maio de 1911  

“A defesa contra o ofidismo”, pelo dr. Vital Brazil, diretor do Instituto Soroterápico do Estado de S. Paulo. – Pocai e Weiss, S. Paulo, 1911.

Este trabalho, que resume anos de observação e experiência, representa o esforço do autor e do Serviço Sanitário do Estado, no sentido de um dos apavorantes problemas da medicina tropical, - a terapêutica do ofidismo.

A feição original e fecunda que lhe tem dado o dr. Vital Brazil, honra o nosso estado, na campanha contra um mal que não é apenas nosso, mas que encontra aqui o mais bem aparelhado instituto para combate-lo.

O livro compreende 152 páginas, e, se bem não desdenhe o ensinamento alheio, beneficiando-se aliás com a literatura não muito farta que existe a respeito, sobreleva por sua feição original, tanto na observação, como sobretudo na experimentação. Não exclui, bem se vê, a obra inicial dos instituidores da soroterapia antiofídica, mas por si próprio alarga e aprofunda os conhecimentos adquiridos e pesquisa o veneno dos nossos ofídios, preparando diversos tipos de soros específicos para cada espécie ou grupos de espécies, soros de provada eficácia, consagrados cada dia com o êxito prático das aplicações clínicas no interior do Estado.

Em introdução, calcula o Dr. Vital Brazil sem o “chauvinismo” com que andam alguns a se aterrar com essa propaganda benéfica, a mortandade do ofidismo em nosso país e o prejuízo econômico de vidas que sacrifica. Desse quadro verdadeiro faz ressaltar os benefícios que tem alcançado o Instituto de Butantan e outros maiores que é lícito esperar, não só dentro do Estado como por todo o país, à força de propaganda e à custa dos recursos terapêuticos que ele fornece. Explica a maneira por que efetua com os lavradores a permuta de cobras por soro anti-peçonhento, explicando e dando em estampas o modo de capturar e remeter para o Instituto as cobras venenosas. Não só obtém com isso matéria prima para a fabricação do soro como divulga, entre os agricultores, a prática salutar.

A obra divide-se em três partes, estudando sucessivamente a biologia dos ofídios, a profilaxia e a terapêutica do ofidismo.

A primeira parte, biologia dos ofídios, compreende três capítulos que examinam com todas as minúcias, a biologia propriamente das cobras, sua classificação e veneno.

O primeiro capítulo explica a anatomia desses répteis, forma, cores, dentes, glândulas de veneno, língua, olfato, ouvido, olhos, reprodução, movimentos e alimentação, demorando no exame de órgãos de especial importância fisiológica, como sejam os dentes e as glândulas de veneno, que constituem o aparelho inoculador da cobra, e a sua arma perigosa e letal. Quanto ao modo de reprodução, faz ver as cobras ovíparas, e as ovovivíparas, das quais as primeiras na quase totalidade não são venenosas, cabendo às ovovivíparas, esse predicado maléfico. Estas últimas deitam os ovos com os filhos já formados, rompendo-se a membrana do ovo por ocasião da postura. Em média, segundo observação do autor, cada Viperídea (espécies venenosas) produz 20 filhotes em cada postura. E essas minúsculas cobrinhas já trazem provida a sua glândula de veneno; o dr. Vital Brazil não conseguiu ainda faze-las vingar em cativeiro.

Todas as cobras são carnívoras e podem passar até um ano e meio sem alimento. O seu veneno não é mais do que um recurso para a conquista da presa que, animais de pequeno talhe, quase sempre morrem fulminados pela grande dose que recebem, servindo de repasto ás cobras que, nas espécies venenosas são muito lentas em movimentos e dificilmente, sem esse recurso natural, poderiam prover a própria subsistência.

Termina este interessante capítulo com sugestivo estudo de erros e superstições acerca de serpentes, muitos deles partilhados até por espíritos de alguma cultura.

Erros esses que agravam muitas vezes o mal de si tão grave do ofidismo.

Destrói o autor, com a observação própria e com a de Schlegel, a crença popular tão espalhada do poder fascinador das serpentes e com o qual se arquitetam as mais fantásticas lendas.

Fala nos curadores, que se dizem “curados” e que não são mais que exploradores da crendice alheia ou indivíduos ingênuos, que, não raro, pagam com a vida a sua ignorância ou má fé. Cita dois casos de acidentes em que os curadores apelaram para o soro que os salvou.

No cap. II, - da classificação das cobras, diferenciando as venenosas das inócuas, - o autor merece todo o interesse dos agricultores, que, não raro, levados pelo maravilhoso do assunto e tolhidos pelo pavor de observá-lo, andam a esmo na maior ignorância a respeito, levados pelos erros da tradição, que nem sempre se inspira na verdade dos fatos. No ponto em que detalha os caracteres diferenciais entre os ofídios venenosos ou não, faz-se acompanhar de figuras explicativas, que pena é não serem mais copiosas e mais claras, pois tal descrição é de sumo valor na divulgação dos conhecimentos a que o autor se propõe.

Uma por uma, descreve cada qual das nossas espécies peçonhentas, dando-lhes nomes científicos e vulgares, explicando caracteres essenciais, reproduzindo-os em figuras litográficas, que infelizmente não estão na altura da descrição e do assunto.

Quando se sabe o que vai por aí, de ignorância, em matéria de ofídios, quando se pondera nos males decorrentes disso, é que se pode avaliar o serviço que vai prestar este livro. Lavradores e médicos que clinicam no interior, na urgente e imperiosa necessidade de diagnosticar a espécie de ofídio causadora de um acidente a curar, esses é que hão de bem-dizer o trabalho com que o dr. Vital Brazil os elucida. Quantas vezes por falta de ensinamentos a respeito, mesmo depois do benefício do soro, não se claudicava em sua aplicação, por falta de exato conhecimento das espécies agora explicadas aqui nos seus caracteres, em sua mordedura e noutros detalhes preciosos para o diagnóstico.

O capítulo terceiro trata da peçonha, sua quantidade individual, caracteres físico-químicos, modo de extração, efeitos sobre animais, variedade de ação, minucioso estado que revela frequente e severa experiência.

Profilaxia do ofidismo é objeto da segunda parte do trabalho, indo de conselhos individuais a práticas coletivas. Nos primeiros trata do resguardo do indivíduo as picadas venenosas; nos segundos aconselha os meios de destruição das cobras, tal qual é feito em outros países. Dentre os meios indiretos está a proteção de animais destruidores de serpentes, figurando entre eles a “Rachidelus brazilii” (identificada mais tarde como Oxyrrhopus cloelia) vulgarmente “mussurana”, descoberta pelo dr. Vital Brazil.

 Aqui o autor explana-se com verdadeiro e justificado carinho, descrevendo miudamente a espécie ofiófaga, seus hábitos, sua inteira inocuidade para com o homem e sua providencial ação contra as espécies venenosas que caça e devora. Em estampas coloridas, mais felizes do que as referidas atrás a mussurana se nos apresenta ou só ou em diferentes lances da luta e deglutição de uma jararaca. A divulgação dessa descoberta, a que o dr. Vital Brazil não tem se poupado, é de grande interesse para os agricultores, para protegerem um animal tão útil e até agora perseguido, ao desconhecimento de sua importância profilática.

Segue-se a “terapêutica do ofidismo”, desenvolvida em três capítulos: tratamentos supersticiosos e empíricos, tratamentos químico-fisiológicos e tratamento específico ou soroterápico.

Na crítica dos tratamentos empíricos e supersticiosos o autor ataca com veemência a má fé ou crendice que tanto prejudicam as vítimas do veneno ofídico.

Os tratamentos químico-fisiológicos já fizeram sua época e, em verdade, nada mais fizeram do que isso.

A verdadeira terapêutica antiofídica nasceu com a soroterapia, salvando de uma tortura os homens de ciência e tirando do caos um dos mistérios do tropicalismo, tanto tempo indecifrável.

Cabe ao dr. Vital Brazil a glória pessoal de tais estudos em aplicação ao nosso país, iniciados não há muito e já amplamente sancionados pela prática.

Descreve o autor a preparação dos soros anti-peçonhentos, a imunização dos animais (muares e cavalares), as provas experimentais de eficácia do soro e as provas clínicas, dadas por grande número de médicos, transcritas cinquenta das muitas observações transmitidas ao autor.

Remata com estatísticas das espécies mordedoras, de suas vítimas e detalha conselhos práticos sobre a aplicação do soro, com estampas elucidativas. Bibliografia, índices, eis terminado o volume.

Não é muito fazer um livro, quando a pena é dócil e benigno o papel. Mas, dizer em cada página um trato vencido do caminho, retratar em linhas breves a sinuosa e áspera vereda das investigações, condensar na escrita um mundo de trabalhos, expurgados de dúvidas e incertezas, - um livro, então, não mede as horas porfiadas que o germinaram.

É desses o livro do dr. Vital Brazil.

Valendo como expoente de trabalho, avulta por sua utilidade prática imediata e fecunda. Dignifica o autor e o Serviço Sanitário do Estado, mostrando que não ficaram estéreis providas sementes lançadas a terra, numa hora de luz, por mãos benfazejas e audazes.

E é quando se corporifica assim uma conquista real que anda por aí o “bom senso” a tremer de pavor que a fama dos serpentários nos prejudica “lá fora”, mais do que as serpentes nos vitimam aqui.

Enquanto só havia peçonha tudo era quieto; com o soro curativo é que surgem os pudores...

Bem avisava alguém: “desconfiai do bom senso: as maiores tolices e crimes tem-se cometido em seu nome! ”

Que falem nos “jardins das serpentes! ” – Contra isso, além dos soros, filhos do nosso próprio esforço, a natureza ainda, de quebra, nos deu a mussurana. E anda pelo mundo e por aí tanto mal irremediável, sem mussuranas nem soros”. ”

 

Memória Histórica do Instituto de Butantan, Vital Brazil, São Paulo, Elvino Pocai, 1941

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